Empresas ganham relevância na construção de economia sustentável

Conscientização trazida pela pandemia é legado que ajudará o mundo corporativo a acelerar mudanças. Cresce a importância das empresas líderes nos mercados como catalisadoras na promoção de uma economia mais sustentável e, portanto, mais amigável aos recursos naturais do planeta. Se, por um lado ainda não é possível saber 100% como será o futuro, o começo desse processo que resultará em novos modelos de negócios embute a esperança de que a crise sanitária da Covid-19 deixe um legado de conscientização não só no mundo corporativo, mas em toda a sociedade para acelerar as transformações na retomada.

Esse foi o eixo do debate sobre “Retomada Verde Pós-Covid-19 – Reconstrução da Economia Focada na Sustentabilidade”, no Sustainable Talks, evento promovido durante toda esta semana pela Scania Latin America (SLA). Neste ano, segunda edição do evento (a primeira foi em 2019), os debates aconteceram no modo online por causa das medidas de isolamento social. Hoje, o Sustainable Talks será encerrado com debate entre CEOs sobre as perspectivas e desafios das empresas para um futuro sustentável.

“A crise sanitária do coronavírus veio desafiar a forma de realizar negócios e já provoca reflexões. Ainda é cedo para certezas sobre como essa jornada vai ser concluída, mas é latente o aumento da relevância dada à sustentabilidade na produção, distribuição e consumo”, afirmou o diretor de Parcerias Estratégicas e Mobilização de Recursos da Rede Brasil do Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU), Marcelo Linguitte, um dos debatedores convidados.

Exercer a influência
O setor privado tem um poder gigantesco para influenciar novas atitudes voltadas a reduzir o impacto das mudanças climáticas, no médio e longo prazos, além de mitigar danos econômicos e sociais de pandemias como a atual, ressaltou a diretora de Sustentabilidade da L’Oréal Brasil, Maya Colombani, outra participante do evento. “A crise sanitária mostrou que estamos todos interconectados, mundos macro e micro. Não tem a natureza e o homem, tem a natureza que fala com o homem, não vivemos isolados. As políticas públicas são fundamentais na condução de um freio da destruição do planeta, mas as empresas e as pessoas também podem fazer acontecer”, destacou.

Maya enfatizou que a francesa L’Oréal, a maior das empresas de cosméticos do mundo, presente em mais de 130 países e, portanto, um exemplo a ser seguido, quer ser a beleza do futuro, mas de forma responsável. “Por isso, respiramos a convicção sobre a urgência em construir o mundo de amanhã, buscamos nos tornarmos protagonistas do amanhã que tanto queremos e tanto precisamos”, acrescentou.

O coronavírus não tem fronteiras, atingindo a todos – população de países pobres, ricos, emergentes, de todos os continentes. Em um momento crítico como o atual, players globais de setores essenciais, como alimentação, tiveram de continuar abastecendo os mercados, sem descuidar da segurança de seus colaboradores e dos clientes, bem como da origem das matérias primas dos fornecedores, com produtos livres de representar risco aos consumidores. Karina Fogel, diretora global de Comunicação do Grupo Bimbo (uma das mais importantes empresas de panificação do mundo, detentora das marcas Plus Vita e Pullman), enfatiza que as medidas emergenciais voltadas a mitigar os impactos da pandemia não atrapalharam as metas ambientais, pelo contrário, ganharam peso.

Ações abrangentes
O grupo, criado no México, adaptou rapidamente suas operações na elaboração de produtos, distribuição e prevenção da saúde de seus 134 mil colaboradores, bem como junto aos fornecedores, para entregar aos comerciantes alimentos sem risco de questionamento sobre as condições de higiene. “Doamos recursos para apoiar hospitais e profissionais de saúde no enfrentamento da pandemia, destinamos alimentos para ajudar comunidades em condições vulneráveis e estendemos nosso apoio econômico, por meio de crédito, a cerca de 1 milhão de pequenos comerciantes com objetivo duplo. Para abastecer a população e ajudar na sobrevivência de milhões de famílias, que dependem desses microempreendimentos”, ressaltou a diretora do Bimbo.

Não foi diferente na Ambev, maior fabricante de cerveja do mundo e detentor de mais de vinte marcas da bebida. Carolina Pecorari, diretora de Sustentabilidade do grupo, relatou que além de doações de recursos para populações carentes e unidades de atendimento de saúde, a pandemia salientou o acerto do rumo que já vinha sendo traçado pela companhia, o da sustentabilidade para dentro e para fora de suas unidades de produção. “Antes de sermos Ambev, quando éramos Antarctica e Brahma, nosso foco já estava no ecossistema, desde o cultivo da cevada, passando pelos bares até os consumidores. Ou seja, a cadeia inteira é contemplada em nossas iniciativas de sustentabilidade, pois todos fazem parte de um esquema sobre o qual cabe à marca agir para transformar”, argumentou a executiva.

Fora e dentro das fábricas
Segundo Carolina, com a premissa da sustentabilidade em todas as marcas da Ambev, a companhia passou a fixar metas de redução de consumo de água em todas as operações, assim como na emissão de CO2 e introdução de energia solar. O grupo também investiu em uma aceleradora de startups para desenvolver parcerias voltadas a soluções inovadoras.

Patrícia Acioli, responsável por Communications na SLA e coordenadora do debate, observou que as experiências narradas pelos convidados apontam para o tamanho da responsabilidade das corporações de setores essenciais e com papel preponderante no mercado. “Responsabilidade não só para garantir o abastecimento. Junto com essa agilidade nas operações, a parte do ‘S’ também foi ativado rápido”, comentou, referindo-se às iniciativas sociais – de ESG, sigla em inglês relativa às melhores práticas ambientais, sociais e de governança – encampadas pelas grandes corporações para combater a fome em populações desprotegidas, bem como reforçar as condições de trabalho de profissionais de saúde e a rede pública de assistência.

No entanto, para além do auxílio emergencial da crise sanitária, as companhias puderam se aproximar dos consumidores, um requisito do sucesso das estratégicas de médio e longo prazo. “Nos aproximamos dos consumidores para fazer frente não só a tempos difíceis. O conceito de sustentabilidade é transversal em todos os nossos negócios, desde os produtores no campo até o pós-consumo com a preocupação de utilizar embalagens biodegradáveis”, assinalou a diretora global de Comunicação do Bimbo. Inclusive, o grupo tem sua própria fabricante de caminhões elétricos para a distribuição no México. “Não mudamos nossos objetivos de sustentabilidade, todos os compromissos foram mantidos”, acrescentou.

Um bom sinal
A maior adesão das empresas, durante a pandemia, ao Pacto Global da ONU é um bom sinal, sublinha Marcelo, para quem esta é uma das várias formas da sustentabilidade incorporada nas ações empresariais. Um dos fatores que auxiliam a transformação no mundo corporativo, segundo ele, é uma postura mais enfática por parte de investidores, especialmente fundos de investimentos que valorizam um horizonte de tempo maior. Esses fundos vêm sendo mais seletivos, evitando apostar em organizações sem a sustentabilidade em suas agendas.

Outro aspecto que o diretor de Parcerias Estratégicas e Mobilização do Pacto Global no Brasil ressalta é a mudança de cultural nas empresas. Embora impulsionadas pela pandemia, é necessário que essas alterações tenham continuidade, representando, mais adiante, algo realmente novo. “O grande desafio é como este tema passa ser um atributo da cultura organizacional, que efetivamente comece a fazer parte das políticas, dos processos, da rotina dos colaboradores e das lideranças”, comentou. Atrás da mudança cultural virá a mudança no modelo de negócio, emendou.

“Fazer como fazíamos 15 anos atrás não dá mais. Se o nível atual de consumo for mantido, logo necessitaremos de três planetas para dar conta. A sustentabilidade já faz parte do negócio da L’Oréal e terá de fazer mais ainda porque teremos de nos reinventar porque a Terra atingiu seus limites. E isso não é para sobrevivência do planeta, mas de nós, seres que habitamos aqui. Se em dez anos não colocarmos um freio considerável nas mudanças climáticas, haverá falta de água e muita gente morrendo de fome”, argumentou a diretora de Sustentabilidade da fabricante de cosméticos.

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