Investidores e consumidores impõem às empresas compromisso com stakeholders

Novo modo de pensar e agir das companhias observará cada vez mais as boas práticas ambientais, sociais e de governança (ESG). A lógica dominante nos anos 1990 na administração das empresas, com foco exclusivo na busca do lucro para os acionistas, está em transição para um novo modelo de pensar, que contempla compromisso geração de valor para além dos proprietários. “O capitalismo de stakeholders” está sendo exigido pelos investidores, que avaliam cada vez mais os impactos das operações das organizações nos aspectos ambientais, sociais e de governança –, e também pelos consumidores, especialmente as novas gerações.

“As empresas estão conectadas com uma nova maneira de existir, que insere todos os stakeholders em suas decisões e participam das questões relevantes para a sociedade, independente da área em que atuam”, afirmou Fábio Alperowitch, CFA da Fama Investimentos no debate do Sustainable Talks, de quinta-feira (22) à noite, sobre “Investimentos Sustentáveis – Financiamento ‘verde’ e boas práticas de ESG como nova realidade”. O evento, promovido pela Scania Latin America (SLA) está na segunda edição (a primeira foi em 2019).

Também foram convidadas a fazer parte do debate Gleice Donini, superintendente responsável pela agenda estratégica de sustentabilidade na B3 (a bolsa de valores do Brasil), e Ana Cristina Costa, chefe do Departamento de Bens de Capital e Mobilidade do BNDES. Os três participantes foram assertivos em afirmar que a sigla ESG será amplamente conhecida daqui para frente, na medida em que avançar a relevância das boas práticas ambientais, sociais e de governança das companhias na escolha dos investidores e consumidores. Na sigla em inglês, ESG significa Meio Ambiente, o Social e a Governança.

Na previsão do CFA da Fama Investimentos, dentro de algum tempo as companhias que não incorporarem o ESG em sua gestão se tornarão nicho, ao contrário do que ocorria até anos atrás. “Lembram de quando era permitido fumar dentro de um avião? Hoje, além dessa proibição ser estendida para qualquer ambiente fechado, somos obrigados a ver uma foto repugnante sobre o efeito das toxinas em nossa saúde quando compramos uma carteira de cigarro. Com a sustentabilidade será mais ou menos assim. Muito em breve todo mundo vai torcer o nariz para as marcas que não abraçarem e praticarem as causas voltadas aos direitos humanos, questões sociais e ambientais”, comentou.

Ganho com ações ESG
No Brasil já existem vários exemplos de como as companhias ganham em vez de perder ao destinar recursos para programas de preservação ambiental e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, ao combate à pobreza, à maior diversidade de raça, gênero, gerações, orientação sexual entre seus funcionários, bem como na transparência de suas operações.

Além de olhar para o ganho que será dividido entre os acionistas, cresce o número de companhias que também passaram a se importar com a diversidade e inclusão nos quadros de colaboradores, com o combate da desigualdade social na comunidade onde estão inseridas, em fortalecer os fornecedores, em se posicionar em relação ao racismo e homofobia. “Curiosamente, o efeito desse novo capitalismo traz benefícios e ganhos financeiros para as empresas”, ressaltou Alperowitch.

Gleice Donini, superintendente responsável pela agenda estratégica de sustentabilidade na B3, lembrou que o valor das ações da Natura – marca referência de sustentabilidade no mercado – subiu 7% com a divulgação da campanha publicitária do Dia dos Pais, que incluiu um homem transexual. Mais recentemente, as ações da Magazine Luiza também foram negociadas por valor maior logo após o anúncio de um programa de trainee exclusivo para negros.

A agenda positiva demandada ao setor privado conta com a pressão do empoderamento dos consumidores, especialmente das novas gerações, que querem posicionamentos mais firmes das empresas. “Ao lado do que acontece na Europa, onde é maior a atenção dos investidores em relação aos riscos de perdas financeiras em atividades econômicas em decorrência das mudanças climáticas, de atitudes do Banco Central brasileiro que vem puxando o mercado financeiro, a mobilização das novas gerações nas redes sociais com rapidez praticamente obriga um posicionamento”, enfatiza a executiva da B3. A esse movimento se une a revisão, em 2021, do Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3 (ISE B3), para incorporar detalhes diferenciados das atividades.

Empoderamento das novas gerações
Em paralelo ao maior protagonismo das novas gerações não só no consumo – daqui a pouco a geração “Z” ocupará cargos de liderança nas organizações, políticas públicas –, a mudança de perfil dos próprios investimentos na Bolsa, por exemplo, com avanço das mulheres, como aconteceu durante a pandemia, é outro fator de pressão sobre as escolhas das empresas, de acordo com Gleici. Dos cerca de 3 milhões de pessoas físicas que hoje investem na Bolsa, um terço é da geração millenium. “Esses novos investidores estão muito atentos para as práticas das companhias. Daqui a pouco, esse público vai tomar decisões sobre onde colocar seu dinheiro, onde trabalhar, de quem vão comprar o que consumirão. É um caminho sem volta que impacta as decisões dos investidores, mas também cria oportunidade para a mudança e valoriza quem já está fazendo a transição”, ressalta a executiva da Bolsa.

Diante de tantas transformações, não vai surtir efeito a prática denominada de greenwashing – o “banho verde” que algumas organizações dão em sua imagem, por meio de técnicas de marketing, mas praticam ações divergentes do discurso. “A coerência é um valor em alta nesse contexto do ESG e precisa ser percebida ao longo de sua jornada, não valem mais somente atitudes pontuais, como um relatório anual de sustentabilidade cheio de fotos bonitas. Isso não convence mais”, sublinhou Gleici.

Para exemplificar o novo jeito de pensar e agir das empresas, Alperowitch citou como a Renner se posicionou logo no início da pandemia. Em comunicado público, e antes de as autoridades decretarem o isolamento social, a varejista anunciou que todas as lojas seriam fechadas no dia seguinte e por tempo indeterminado, deixando claro aos colaboradores a garantia dos empregos e dando prioridade aos fornecedores locais em detrimento das importações. “Isso significa que a decisão de uma marca com bilhões de faturamento e centenas de pontos de venda não foi calcada no econômico, mas pensando em todos os seus stakeholders. Quando a empresa é efetivamente sustentável, não pensa duas vezes em tomar uma atitude dessas”, destacou o CFA da Fama.

Financiamento do futuro
Outro aspecto do debate durante o Sustainable Talks foi o financiamento dos investimentos para a construção de uma economia de baixo carbono. A Scania, por exemplo, foi habilitada a entrar no mercado de títulos verdes, inicialmente na Europa. Poderá utilizar este instrumento para reforçar a captação de recursos destinados a aportes da fabricante sueca na implementação das mudanças rumo à segurança energética, ao transporte e logística sustentáveis, com metas de redução de emissões de gases de efeito estufa e compromisso com o cumprimento de metas para o alcance dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Social (ODS), estabelecidos pela Organização das Nações Unidas. Desde o ano passado, a Scania é signatária do Pacto Global da ONU.

Ana Cristina Costa, chefe do Departamento de Bens de Capital e de Mobilidade do BNDES, explicou que, conectado com as novas demandas de destinação de recursos públicos na economia sustentável, a instituição enfrenta o dilema de como e onde investir. “Hoje existe uma nova forma de construir a realidade, mas estamos passando por uma crise profunda que resulta em desafios enormes sobre como lidar com a agenda de investimentos, de inovação, de preservação de empregos”, enfatizou.

Ela lembrou que os programas da agenda de melhoria nas emissões de veículos, junto à indústria automotiva, por exemplo, podem sofrer alteração em seu cronograma em decorrência da pandemia e de seus efeitos negativos na economia. Após citar que as diretrizes do banco de investimento do governo federal estão em linha com as ODS do Pacto Global a ONU e com o conceito ESG, Ana defendeu que pelas características do Brasil, existe um amplo leque de possibilidades para a transição entre a atual matriz energética para os transportes de passageiros e cargas e a economia de baixo carbono. A adoção em maior escala do gás natural, embora de origem fóssil representa ganho em relação ao diesel em termos de saúde, seria um passo. Sem contar o etanol, uma tecnologia brasileira.

“Nosso tamanho permite, na infraestrutura atual, verificar se já temos solução híbrida, em vez de focar só na eletrificação, como faz a Europa. É preciso considerar nossas particulares e potencialidades, possuímos várias tecnologias disponíveis, outras virão e, com isso, conseguiremos construir uma infraestrutura na medida de nossas necessidades. O futuro será eclético, não elétrico”, argumentou a diretora do BNDES.

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