‘Retomada verde’ requer parcerias e menos filantropia nas ações sociais do setor privado

Nestlé, Itaú e EDP defendem agenda comum das empresas para ampliar impacto social de suas iniciativas de enfrentamento de crises e da desigualdade social.
A ênfase na pós-pandemia não será restrita a uma “retomada verde”, do ponto de vista do modelo de produção, distribuição e consumo de bens e serviços, mas outra tendência já observada é a consciência por uma atuação com visão menos filantrópica e mais estruturante no combate às desigualdades, nos investimentos sociais do setor privado. Inclusive, mais direcionados ao reforço da saúde pública, foco antes preterido em detrimento da educação, cultura, esporte, terceira idade. O “S”, pilar social dos princípios ESG (sigla para práticas ambientais, sociais e de governança), ganhou mais atenção das empresas na pandemia.

Outra palavra chave do novo contexto mundial é parceria, uma vez que a brutal transformação exigirá o envolvimento de todos – governos, empresas e sociedade civil. Políticas públicas, sozinhas, não darão conta de fazer frente às exigências na escala necessária para mitigar as consequências econômicas e sociais da pandemia, bem como de futuras batalhas contra novas crises sanitárias da magnitude da vivida neste ano em todo o mundo, como já preveem os cientistas. É nesse horizonte que cresce o papel do setor privado como player em ações de curto, médio e longo prazo, como ficou demonstrado em 2020.

Estas ideias foram destacadas ontem (21) no debate sobre “Impacto na Sociedade, Parcerias para Transformar”, durante o Sustainable Talks, realizado nesta semana pela Scania Latin America (SLA). Os convidados Luciana Nicola (superintendente de Relações Institucionais, Sustentabilidade e Empreendimento do Itaú), Dominic Schmal (gerente executivo de Sustentabilidade da EDP) e Barbara Sapunar (diretora de Comunicação e Sustentabilidade da Nestlé) contaram como essas grandes companhias enfrentaram e continuam enfrentando os desafios trazidos pela pandemia da Covid-19. Esta é a segunda edição do evento, que neste ano acontece online.

Chance de reposicionamento
O “novo normal” evidenciou o quanto os recursos ambientais do planeta estão sobrecarregados e os benefícios resultantes de tirar o pé do acelerador na atividade econômica durante alguns meses. Parte da qualidade perdida do ar e das águas foi recuperada, explicitando o lado predatório do atual modelo econômico. “Como já está acontecendo na Europa e nos Estados Unidos, aqui também temos de pensar que esse ciclo precisa continuar, aproveitar a oportunidade de nos reposicionarmos, valorizando a sustentabilidade, redirecionando os investimentos sociais e os novos papeis que as empresas privadas assumirão na sociedade”, sublinhou Dominic.

Neste “grande recomeço” as iniciativas em projetos sociais foram repriorizadas para apoiar conceitos básicos – higienizar as mãos, usar máscaras e praticar o distanciamento social – e salvar vidas, uma grande chance foi criada para as organizações, comentou Dominic.

Para a diretora de Comunicação e Sustentabilidade da Nestlé, Barbara Sapunar, não haverá negócio na pobreza e no desemprego. “Teremos de contribuir no enfrentamento dos desafios e adotar um olhar mais abrangente e mais rápido dentro de nossas empresas, negócios, nos tornando protagonistas estratégicos, não só em momentos de mitigação de crises, mas visando resultados no médio e longo prazo na transformação que recém-começou”, afirmou a executiva.

Agenda social única
Uma agenda única de propósito dos investimentos sociais das empresas privadas no Brasil fará a diferença para essas ações mudarem de patamar em sua intervenção, avaliou Luciana Nicola, superintendente de Relações Institucionais, Sustentabilidade e Empreendimento do Itaú Unibanco. “O investimento social do setor privado não é pequeno, mas é preciso melhorar o uso dos recursos, que podem ser aplicados com maiores eficiência e impacto. Hoje, as companhias apostam em muitas causas, mas a pandemia indicou que temos de focar em uma ou algumas poucas causas”, ressaltou a executiva. “A pandemia nos tirou uma venda dos olhos para enxergar que a nossa saúde pública, apesar da existência do SUS, uma grande vantagem que evitou um número maior de mortes pela crise sanitária, é tão vulnerável quanto a educação, por exemplo”, completou.

A executiva do Itaú Unibanco assinalou que as empresas privadas, além de desembolsar recursos e doações de combate à fome, cuidados com higiene, reforço de equipamentos para profissionais de saúde e hospitais – somente o programa “Todos pela Saúde” do banco aplicou R$ 1 bilhão nos últimos cinco meses – podem disponibilizar aos governos seu know-how em gestão financeira, logística e novas tecnologias para a condução mais assertiva das políticas públicas de saúde. Esta é uma das questões em análise na instituição financeira sobre como dar continuidade nas ações deflagradas durante a pandemia.

Um dos pontos de atenção, segundo Luciana, é o fato de o Brasil não ter um centro de epidemiologia de referência e depender de informações de outros países, o que é preocupante no caso de nova epidemia de grande proporção como a da Covid-19. Esse poderia ser um legado duradouro da atual pandemia por parte da iniciativa privada, com colaboração na forma de recursos e conhecimento.

Parcerias para ganhar escala
Neste sentido, a colaboração entre os diversos envolvidos nas ações sociais ganhou ainda mais relevância, reforça Dominic, pois ninguém faz nada sozinho. “Maior mobilização em torno das parcerias é fundamental para ganhar escala nas iniciativas. No Instituto EDP, nos 400 projetos falamos em cadeias, em romper a fronteira entre as empresas e os parceiros, estreitar elos. A cadeia contagia. Crise sanitária e mudanças climáticas impõem reinvenção frente à solução de problemas sociais complexos”, frisou o executivo da EPD, empresa do setor de energia que atua no Brasil há mais de 20 anos.

Não por acaso um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) fixados pela Organização das Nações Unidas para a ação que visa acabar com a pobreza, proteger o planeta e assegurar que todas as pessoas tenham paz e prosperidade é “Parcerias em Prol das Metas". “Governos, setor privado e sociedade formam um triângulo que faz todo sentido numa visão de colaboração”, acrescentou Dominic. Inclusive, o Instituto EDP estimula os parceiros nos seus projetos a buscar novas parcerias. “Fomos contagiados por solidariedade imensa na emergência de agir rapidamente e, agora, temos a chance de um novo contrato social, abandonando o olhar de filantropia e gerando valor de impacto social”, afirmou.

Fora a doação de 800 toneladas de alimentos (R$ 55 milhões) durante a pandemia, a preocupação de cuidar dos colaboradores e garantir o abastecimento, a maior empresa de alimentos do mundo há cem anos no Brasil, a Nestlé está calçando as alterações em sua política social na criação de valor para todas as partes: empresa, cadeia produtiva (incluindo fornecedores), consumidores e planeta. A multinacional abriu novas frentes de atuação social, como ajuda a milhares de pequenos varejistas, ajudando-os a atravessar a escassez de faturamento, unindo-se a concorrentes nessas iniciativas. Neste “momento transformador”, também adotou restaurantes, apoiou comunidades carentes e ampliou o corte de resíduos sólidos, ampliando o alcance de algumas atitudes já existentes. Esse esforço abrange ainda o investimento em novas formas de cultivo para o lançamento de produtos orgânicos e a reeducação dos consumidores para adotar produtos mais saudáveis.

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