Benefícios conquistados durante a pandemia precisam ser mantidos

Continuidade de menor sobrecarga da mobilidade urbana e de redução da poluição depende de esforço conjunto. A demanda menor da mobilidade urbana durante o isolamento social exigido pela pandemia e, em consequência, a redução da poluição, precisa ser constante e contar com o avanço de pequenas atitudes no cotidiano das pessoas. É o esforço conjunto – de governos, por meio de políticas públicas; do setor privado e da população – que permitirá manter os benefícios conquistados paradoxalmente por exigência da Covid-19, resultando em menos sobrecarga ao meio ambiente e contenção do impacto negativo das mudanças climáticas na saúde humana. Algo para hoje, não para o futuro.

Essa foi uma das conclusões do primeiro debate da segunda edição do Sustainable Talks, iniciado ontem (19) e com programação até esta sexta-feira, 23. O médico patologista e professor da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Saldiva, um dos convidados, alertou para o elevado custo – em perda de vidas e despesas do nosso sistema de saúde – resultante do adiamento de ações voltadas a mitigar as emissões de gases de efeito estufa, que pioram o aquecimento global e causam inúmeras doenças.

A diretora-presidente da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), Patricia Iglecias, também participante do debate, deu um panorama do que a estatal vem fazendo para acelerar novos padrões de cuidados com os recursos naturais, como o estímulo à transformação de resíduos sólidos não recicláveis em energia (combustível), desafogando a utilização de aterros sanitários e incineração desses materiais.

“A desaceleração imposta pelo combate à pandemia permitiu enxergar um céu de brigadeiro em São Paulo e o fundo da Baía da Guanabara no Rio de Janeiro, escondido há décadas. Isso corrobora a ideia de que devemos pensar em sustentabilidade aqui e agora. Nesta semana, reuniremos vozes potentes para reafirmar esse propósito”, afirmou o e Presidente CEO da Scania Latin America (SLA), Christopher Podgorski, na abertura do evento.

De acordo com o executivo, o Sustainable Talks realça a visão de sustentabilidade da Scania, de que a empresa não pode fazer essa jornada sozinha, mas em parceria com todos os seus stakeholders. Ano passado, o evento marcou a entrada da Scania como membro pacto global da ONU, novo passo na caminhada iniciada em 2016 – quando a marca introduziu no mercado a nova geração de caminhões e definiu “mais do que uma estratégia, uma razão de existir, a descarbonização do setor de transportes”.

Reforço da sustentabilidade

“De lá para cá, fazemos a transição para um novo modelo de negócios. Em 2020, apesar da pandemia, tivemos oportunidade de reforçar nosso compromisso de sustentabilidade”, acrescentou. A fabricante sueca passou a industrializar os caminhões a gás no Brasil, em maio fixou metas ousadas para redução da pegada de carbono na frota circulante, antecipando o prazo de utilização integral de energia não fóssil nas operações industriais em todo o mundo.

Outro passo foi a habilitação da empresa a entrar no mercado de títulos verdes, inicialmente na Europa. “São marcos de mudança da realidade cultural, de alternativas de segurança energética, de economia de baixo carbono, de sermos parte do problema e queremos participar da solução”, acrescentou Podgorski.

Para incrementar as “provocações” ao público que acompanhou o debate sobre “Impacto das mudanças climáticas na saúde – Como emissões interferem na qualidade de vida da população”, e ressaltar que “para a Scania não existe “bala de prata”, mas a conjunção de atores trabalhando para a transformação”, Patrícia Acioli, responsável por Communications na SLA, pontuou fatos globais emblemáticos das mudanças climáticas e seu poder de influenciar o horizonte do planeta e de seus habitantes.

São eles a reunião dos 200 líderes mundiais que firmaram, em 2015, o Acordo de Paris, se comprometendo a segurar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais; Organização Mundial da Saúde (OMS) já alertou que o grande risco da saúde mundial no século 21 virá das mudanças climáticas; nas cidades, convivemos com alto índice de emissão de gases poluentes, poluição sonora, fatores que expandem a complexidade do gerenciamento ambiental e impactam diretamente na qualidade de vida e saúde; o avanço de doenças respiratórias, infecciosas e cardiovasculares está diretamente relacionado à influência do aquecimento global na saúde humana.

Acelerar a transformação
Há trinta anos dedicando-se ao estudo do impacto das mudanças climáticas na saúde e à luta pela transformação das condições atuais que aceleram o aquecimento global, o patologista Paulo Saldiva lamentou a lentidão de governantes nas decisões de políticas públicas de transportes e outras capazes de dar um alívio às emissões de gases poluentes na atmosfera. “Brasileiro pega carro para ir à padaria, quando caminhar é altamente benéfico para a saúde. Infelizmente, nossa forma de transporte nas cidades é essa. Governo federal, governadores e prefeitos relutam em legislações estimuladoras do uso do transporte público, da adoção de combustíveis não fósseis nas frotas de ônibus”, criticou.

Participante de estudo global sobre a conexão entre as mudanças climáticas e a saúde da população, que analisou dados de 1.840 cidades brasileiras, o professor da USP explica que variações bruscas de temperatura e ondas de calor são decisivas nas internações e mortalidade, apesar da nossa capacidade de adaptação. Em média, 6% das internações hospitalares no SUS são atribuídas a variações de temperatura na cidade de São Paulo em períodos de temperatura extrema. Dias mais quentes elevam em até 50% a mortalidade por doenças cardiovasculares e respiratórias no dia seguinte.

Outra consequência é o avanço de doenças infecciosas que dependem de vetores (malária e febre amarela), como já acontece nas metrópoles brasileiras, bem como as migrações de áreas a se tornarem desertificadas, a exemplo do que aconteceu no País no final do século 19, com parte dos nordestinos e nortistas mudando para o Sudeste.
Desacelerar a emissão de gases que contribuem para o aquecimento global – e não se trata apenas do CO2, mas de todos produzidos e que merecem menos atenção – não desperta muito interesse porque a ideia predominante é de que uma ação, hoje, só surtirá efeito daqui a 80 anos, e os primeiros beneficiados serão os ursos polares, constata Saldiva.

“No entanto, se o argumento mudasse para o de que reduzir a poluição equivaleria, em uma cidade como São Paulo, a cortar três cigarros por dia que todos nós consumimos, mesmo não sendo fumantes, e que comer menos carne vermelha diminui o risco de câncer de estômago, se utilizar menos o automóvel e caminhar mais aumenta o trânsito intestinal, a perda de peso e ameaças de doenças metabólicas, artrose e cardiovasculares, o incentivo a mudar de hábito pode ser outro”, assinala o médico.
E, se por um lado governantes alegam custos altos para mudar as fontes de combustíveis das frotas de transporte público e até mesmo para investir mais em metrô, por exemplo, quanto custa para a saúde pública não investir a médio e longo prazo? “Nas grandes cidades, o transporte coletivo é ter de fumar sem ter escolha. Com isso, crescem os riscos de doenças cardiovasculares, a imunidade a bactérias e vírus que chegam ao nosso corpo cai. Quanto mais tráfego enfrentamos, maior a dose de toxinas ingeridas. Não é só uma questão ambiental, mas de saúde e de direitos fundamentais”, completa o professor da USP.

Energia que vem do lixo
A diretora-presidente da Cetesb destacou a atualização de regras da empresa para possibilitar a geração de energia a partir de resíduos sólidos urbanos e industriais e também os gerados em tratamento de efluentes e de águas. Inspirado em modelo implantado na Espanha, o novo sistema visa o aproveitamento de resíduos não passíveis de reciclagem e que, em vez de destinados a aterros sanitários e, com isso, contribuírem para ampliar as emissões de gases de efeito estufa, se transformam em combustível para utilização de diversas maneiras.

Em conformidade com a Política Nacional de Resíduos Sólidos e Política Nacional de Meio Ambiente, as regras criadas pela Cetesb definem uma lista de resíduos sólidos adequados para destinação às unidades de geração de energia a partir deste lixo, os critérios para o licenciamento dessas usinas, os testes e demais requisitos necessários (veja detalhes em https://cetesb.sp.gov.br/). “Essa agenda, de aproveitamento total de resíduos para gerar combustível limpo permite ingressarmos na economia circular. Isso já acontece há tempo no setor sucroenergético, onde a biomassa de cana de açúcar se transforma em combustível”, explica Patricia.

O Sustainable Talks continua hoje com o tema “Investimentos Sustentáveis – Financiamento ‘verde’ e boas práticas de ESG como nova realidade”. Amanhã, o assunto será “Impacto na Sociedade, Parcerias para Transformar – Responsabilidade Social Corporativa como Legado Pós-Pandemia”; na quinta-feira o debate vai girar em torno da “Retomada Verdade – Reconstrução da Economia Focada na Sustentabilidade”. Na sexta-feira, o evento será encerrado com o tema “CEOS para Sustentabilidade – Perspectivas e Desafios das Empresas para um Futuro Sustentável”.

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