Reverter mudanças climáticas está nas mãos de CEOs atuais

CEO´s da Raízen, ABB, ZEG e Scania Latin America contam como lidam com a missão, na iniciativa privada, de dar uma guinada para o desenvolvimento sustentável.

Os CEOs das empresas, em especial as líderes de mercado com poder de influência, ocupam um lugar decisivo na história da humanidade. Sem exageros, eles são a última geração de dirigentes das corporações privadas nas mãos de quem está a escolha de fazer diferente para reverter o aquecimento global – que não deve exceder 2 °C. Caso esse limite seja ultrapassado, haverá elevação do nível do mar, com inundação das cidades costeiras; o mundo experimentará ondas de calor anuais; e o sul da Europa se transformaria em um deserto.

Embora a missão de dar a guinada rumo ao futuro sustentável imponha um esforço coletivo – de governos, empresas e sociedade em torno do propósito de um desenvolvimento mais sustentável –, as companhias privadas são o principal pilar da ordem econômica que determina a forma de fazer negócios, de produzir, de distribuir e, em grande medida, de consumir. “Ficarei feliz se amanhã ou depois a percepção de meus netos a meu respeito for a de que me mobilizei e tive o ímpeto de buscar essa jornada de sustentabilidade. O legado que quero deixar é o de que, junto com outras empresas, nossos stakeholders, academia, governos, estou agindo para a transformação visando um futuro melhor”, afirmou o CEO e presidente da Scania Latin America (SLA), Christopher Podgorski.

Podgorski foi um dos quatro líderes de grandes empresas que participaram do debate “CEOs para a Sustentabilidade – Perspectivas e Desafios das Empresas para um Futuro Sustentável”, o último de cinco realizados de 19 a 23 de outubro durante o Sustainable Talks, promovido pela SLA nesta segunda edição – a primeira foi em 2019. Coube aos CEOs da Raízen (Ricardo Mussa), da ABB (Ricardo Hirschbruch), da ZEG (Daniel Rossi) e da SLA encerrar o evento que contou com a participação de executivos de várias companhias multinacionais e brasileiras, além de instituições, engajadas na construção de uma resposta para lidar com os impactos decorrentes das mudanças climáticas.

Com as mãos na massa
“Enquanto a Scania assume a posição de liderar a descarbonização no setor de transportes e trabalha no dia a dia criando soluções para cumprir essa meta, a ZEG promove o pré-sal caipira, o biometano; a Raízen recentemente inaugurou sua primeira usina de biogás, e a ABB lançou mão da automação para gerar valor aos seus parceiros na cadeia de negócios e caminhar rumo a um futuro que, tudo indica, será elétrico”, ressaltou Patrícia Acioli, responsável por Communications na SLA e coordenadora do debate, ao resumir como cada uma das organizações representadas no debate se diferencia no mercado.

Se, por um lado, é gigante o desafio caído no colo do alto escalão das grandes organizações para conciliar suas práticas com o respeito às questões ambientais, sociais e de governança, sem deixar de criar valor, por outro é um privilégio ter a oportunidade de fazer acontecer. “Chegou a hora de concretizar muito do que se falava no passado e não ia para a prática. Não é um peso, é uma grande motivação participar desse momento. Tivemos uma onda de responsabilidade ambiental nas empresas em 2008, mas passou. Agora não dá mais para adiar”, disse Mussa, CEO da Raízen, principal fabricante de etanol de cana-de-açúcar do Brasil e maior exportadora individual de açúcar de cana no mercado internacional, com atuação em vários setores da economia.

Tecnologias disponíveis já existem, agora é a hora de articular os atores para ganhar escala na utilização das soluções já desenvolvidas, ressaltou Ricardo Hirschbruch, CEO da ABB Brasil, que concorda com os seus pares e se sente orgulhoso de ocupar um lugar relevante no contexto atual do setor privado. “É uma chance sem igual participar da busca da união do público e do privado com a mesma finalidade. A geração de eólica e solar já é compatível, em custo, com opções mais baratas de energia. A mobilidade elétrica exigirá fontes sustentáveis de energia, e já avançamos bastante nas baterias elétricas para níveis que permitem aplicações descomplicadas”, enfatizou o dirigente. A ABB, multinacional com sede na Suíça, é líder global em tecnologia que estimula a transformação da sociedade e da indústria em prol de um futuro mais produtivo e sustentável.

Peso nos ombros
“Por que deixamos chegar ao limite as ameaças à sobrevivência do planeta e não agimos antes? Por que toda a carga da salvação do planeta recai sobre a geração que, hoje, está no comando das empresas, governos, sociedade?”, questionou Daniel Rossi, CEO da ZEG (Zero Emission Generation). Pertencente ao grupo Capitale Energia, a ZEG produz e comercializa o GasBio, nome dado ao combustível gerado a partir de resíduos sólidos. “Tivemos centenas de anos para corrigir a destruição dos recursos naturais e agora estamos diante da urgência de contar os dias para reverter os riscos. Mas hoje conseguimos enxergar o muro diante de nós, antes não víamos. E isso nos motiva a reescrever esse pedaço da História. Agora a ciência nos indica claramente os desafios, as lutas que temos de abraçar”, sublinhou o CEO.

As quatro empresas participantes do debate já incorporaram em suas operações os indicadores do conceito ESG (da sigla em inglês Meio Ambiente, o Social e a Governança) e assumiram compromissos de redução de emissões de CO2, entre outras. Esta jornada, com metas e prazos a serem cumpridos, no entanto, está sendo apressada pelas cadeias produtivas em decorrência da pandemia da Covid-19. “A crise sanitária alavancou a percepção de emergência de contrapor já as ameaças das mudanças climáticas. Temos inúmeros players globais no Brasil com clientes de seus clientes demandando serviços e produtos engajados na jornada ESG”, sublinhou o CEO da SLA.

Segundo Podgorski, toda vez que a Scania apresenta uma solução que minimiza a emissão de gases de efeito estufa, a marca atrai a atenção desses players globais. “A sustentabilidade é fator de sobrevivência dos negócios. Quem não seguir esta jornada não terá mais investidores nem consumidores, e muito menos quem queira trabalhar nesses negócios”, acrescentou ele. Na Scania, o conjunto de ações adotadas para liderar a jornada de sustentabilidade no setor de transportes e que cunhou a expressão “driving the shift” – foi enfatizado a partir de 2016, quando a fabricante sueca lançou uma nova geração de caminhões, com maior eficiência energética e marcar a decisão da empresa de ser signatário do Pacto Global da ONU (Organização das Nações Unidas), que estabelece metas para cumprimento de 17 Objetivos de Desenvolvimento Social (ODS), incluindo redução de emissões de CO2.

A ZEG também percebeu o aumento de interesse pelo combustível alternativo que produz. “Levou algum tempo para demonstrarmos que a qualidade técnica do biometano e os testes em caminhões Scania, em várias indústrias, ajudaram neste processo. Mas foi depois da pandemia que houve um salto de importantes players do mercado na procura pelo nosso GasBio. O desafio atual é conseguir escala na produção, colocar esse produto nas bombas de abastecimento até atingir consumidores nas ruas, nas rodovias, enfim, na ponta, e assim ampliar a distribuição”, previu Rossi.

De dentro para fora
A importância da mudança cultural nas organizações foi ressaltada por Mussa. “Ainda não sabemos comunicar bem internamente e para o público nossos propósitos. Até mesmo dentro de casa constatei que minhas filhas não sabiam o que o pai delas faz no comando de uma empresa em relação à sustentabilidade”, contou o presidente da Raízen. Segundo ele, não se trata de mostrar que não é mais “ou faz sustentabilidade ou ganha dinheiro”, mas que cuidar do meio ambiente é um bom negócio porque efetivamente gera valor. “Se cada colaborador nosso multiplicar isso ao seu redor, vamos criando uma nova mentalidade”, acrescentou.

Para o CEO da ABB, a exigência dos consumidores é outro fator que vai empurrar cada vez mais a mudança da estratégia das empresas para assumir nova pauta e postura diante das mudanças climáticas. “O fato de as bolsas de valores globais adotarem os índices ESG [ambientais, sociais e de governança] indica o tamanho da imposição da demanda de investidores. Aos poucos, todos os atores importantes vão sendo obrigados a escalar uma coalisão que resulte em maior eficiência energética, economia dos recursos naturais, enfim, as soluções para atingir a sustentabilidade do planeta”, comentou Hirschbruch.

O CEO viu isso acontecer na empresa na ABB, que recentemente alterou sua estratégia global, saindo de setores tradicionais – geração e transmissão de energia – para colocar foco em robotização, eletrificação, digitalização industrial. “Os vários elos das cadeias produtivas, fornecedores, junto com os consumidores, colocam claramente a consciência de um futuro sustentável. Isso mexe com toda a organização, que precisa incorporar um novo olhar em tudo, respondendo à expectativa, inclusive de seus colaboradores ou estimulando o engajamento de quem ainda não entrou nessa onda”, argumentou o executivo.

Assista na íntegra